Segunda-feira, 3 de Março de 2008

*Lendas e Crenças*

Lendas e Crenças

S. Pedro de Rates - Entre a Lenda e a Tradição; A Propósito do Morto Vivo; Uma Fonte... Uma Moura...

S. Pedro de Rates - Entre a Lenda e a Tradição
Conta a tradição que S. Pedro de Rates foi convertido ao Cristianismo pelo Apóstolo S. Tiago, aquando da sua peregrinação pela Hispânica, no século I. Durante essa viagem, cumprindo a missão de difundir a mensagem de Cristo, morto e ressuscitado havia pouco tempo, foi deixando sementes que germinaram e fortaleceram as raízes da Igreja Católica Apostólica Romana, num império hostil à nova Fé. Pedro seria um dos 7 varões ordenados pelo Apóstolo, em Santiago de Compostela, e nomeado bispo de Braga.
Na lenda, o episódio que fez dele um mártir teve origem num milagre: solicitado para curar de doença fatal a filha de um poderoso pagão, S. Pedro de Rates conseguiu-lhe tal dádiva. Reconhecida, converteu-se ao Cristianismo, o que causou a ira do pai e consequente desejo de vingança. Avisado, o Santo refugiou-se em Rates, mas foi aí encontrado e assassinado. Ficou sepultado sob as ruínas da pequena capela onde tudo aconteceu, pois, à semelhança da vida do religioso, também foi destruída.
Tempos mais tarde, do alto do monte onde se refugiara, o eremita S. Félix vislumbrava uma luz na escuridão. Guiado pela curiosidade e pela convicção de um chamamento piedoso. Dirigiu-se ao local, procedeu à remoção das pedras e encontrou a causa de tal clarão: o corpo de S. Pedro de Rates.
A transladação do corpo intacto para a Sé de Braga faz, também, parte da lenda. Os factores reportam-se somente à transferência, no século XVI, pelo arcebispo Frei Baltazar Limpo, de relíquias do Santo (pequenos ossos que análises realizadas apontam ter pertencido a uma criança com cerca de 12 anos). O corpo, se alguma vez existiu, teria já desaparecido.
Muito devoto do seu Santo, a vila de Rates colocou-se sob o seu cuidado. Nos limites definidos pelo caminho do cerco ele vela para que nem fome, nem peste, nem a guerra toquem nos seus protegidos. Para tal pode contar com o apoio de S. Sebastião, que é igualmente celebrado pela paróquia, a 20 de Janeiro.
Invocado para muitas graças, S. Pedro de Rates é, no entanto, associado à esterilidade. De uma antiga fonte com o seu nome diz-se que se poderia obter a cura da enfermidade, cumprindo o seguinte ritual: a mulher deveria sentar-se sobre uma pedra furada que aí existia. Talvez por ser mercê tão divina, tem o Santo fama de vingativo para com quem não cumpre o prometido. É, provavelmente por receio desse “humor”, que muitas mulheres grávidas guardam o dia do Santo – 26 de Abril – e até para os animais fêmeas no mesmo estado não é aconselhável a utilização nos trabalhos. Qual a base histórica desta lenda? A desmontagem pode fazer-se logo ao primeiro nível: são grandes as dúvidas sobre a peregrinação de S. Tiago à Península. Logo depois prova-se que a evangelização de Braga é posterior a meados do século I. Por outro lado, este culto não consta em nenhum dos numerosos livros litúrgicos bracarenses anteriores a 1511. A história aparece pela primeira vez nesta altura, num breviário e missal publicado pelo arcebispo de Braga D. Diogo de Sousa.
Será que não existem fundamentos reais para toda esta lenda fabulosa? A análise do contexto em que ela surge poderá fornecer alguma pista? No século XVI, a diocese de Braga continuava a sua querela com Toledo sobre a primazia ibérica, daí a “grande preocupação em canonizar S. Pedro de Rates, que era identificado como primeiro bispo bracarense e sagrado por S. Tiago Apóstolo. Deste modo queria provar que a Igreja Bracarense vinha do tempo apostólico. Para isso, forjou-se a descoberta do seu corpo pelo eremita e um célebre Dr. Lousada fabricou diversos documentos falsos, como sendo de séculos anterior.” (1)
Então tudo isto foi inventado do nada? Existiu algum Santo com ligações à vila de Rates? É ao P.e Avelino de Jesus Costa que se deve o esclarecimento deste imbróglio. De facto existiu um Pedro, bispo de Braga, que morreu em Rates. Este seria não o primeiro eleito para a cátedra bracarense mas sim o restaurador da diocese, aquando da reconquista cristã. A coincidência do nome possibilitava a confusão. O Bispo D. Pedro (1070-1091), o restaurador, morreu com fama de santidade num mosteiro dos limites da sua diocese. Esse mosteiro seria, muito provavelmente, o de Rates.

A Propósito do «Morto Vivo»
No passado dia 15 de Agosto foi notícia a interdição do habitual cumprimento de promessa a Nossa Senhora Aparecida, em Lousada, designada por “Morto Vivo”. Esta prática também se realizou na freguesia de Laundos em honra de Nossa Senhora da Saúde. Foi no não muito distante ano de 1978 que tal aconteceu pela última vez.

Este ritual simboliza a cura, a “graça” concedida pela Senhora. No momento em que o miraculado é colocado frente à imagem, “renasce”, levantando-se do caixão onde jazia. Para além de tal aspecto, “Os fiéis que procedem a este rito (...), praticam também o que poderia chamar-se uma iniciação à morte, a fim de lhe perderem o medo”(1).
O desaparecimento destas práticas insere-se num processo, já milenar, desencadeado pela Igreja Católica, visando “Extirpar das festas religiosas” todo e qualquer elemento ‘profano’ (...), a grande arma do Arcebispos, no desenrolar desta luta, foram ao ‘interditos e proibições’ que lançaram às comissões e confrarias e até mesmo a pessoas particulares por estas desobedecerem às normas estabelecidas para bem realizar uma festa religiosa”(2). É um verdadeiro confronto entre “religião popular” e a religião pelo povo designada “dos padres” e que tem conhecido vitórias e derrotas para a hierarquia eclesiástica. Em muitos casos ela foi “obrigada” a integrar aspectos profanos, vestindo-os com outras roupagens.
O Santuário da Nossa Senhora da Saúde foi, e é, ponto de confluência de gentes das redondezas mais ou menos distantes. É forte a devoção, quer dos camponeses quer dos pescadores poveiros e vilacondenses. Esta unidade no culto compreende-se facilmente se atendermos que está em jogo um “bem” primordial – a Saúde – e, por outro lado, considerando que para os pescadores em causa, quando estão no mar, a Nossa Senhora da Saúde tem significado especial: o santuário encontra-se no sopé do monte que lhes serve de guia e lhes indica a proximidade do lar.
A romaria a Nossa Senhora da Saúde era extremamente concorrida e conhecida pelos folguedos que, por vezes, acabavam em pancadaria. A plena consciência, por parte da Igreja, de que “nem sempre estas (romarias e peregrinações) são compreendidas única e exclusivamente por motivos religiosos, mas quando principalmente com outros fins, como recrear o espírito, visitar cidades, cultivar as ciências e as artes” (3), levou a que, em 1936, a Congregação do Concílio decretasse que as peregrinações deveriam ter sempre um “carácter verdadeiramente religioso” e o direito de as promover e dirigir caberia unicamente à autoridade eclesiástica. Neste contexto, em 1946, o Monsenhor Pires Quesado organizou pela primeira vez a peregrinação anual, em Maio. Esta acabou por se sobrepor à romaria, cativando grande número de aderentes. Os crentes tinham a possibilidade de venerar a Senhora, sem cair em exageros e profanação. Cumpridos os deveres religiosos, ficavam bastante reduzidos os pretextos para a ida à festa.
A extinção destes rituais reflecte não só a oposição da Igreja, mas também o desaparecimento rápido da sociedade tradicional, onde tinham uma função social a cumprir.

Mª Jesus
(1) Espírito Santo, Moisés – A Religião Popular Portuguesa, 2ª ed. , Lisboa, Assírio e Alvim, 1990, p. 139.

(2) Costa, Joaquim Carneiro – Festas Religiosas Estudo na “Acção Católica” (1916-1988), in “Cenáculo”, Braga, vol. 31, nº 120, 1992, p. 12/92.
(3) Costa, Joaquim Carneiro – Idem, p. 23/103.

Uma Fonte... Uma Moura...
Tal como acontece a muitas fontes, rochedos, grutas, ruínas, etc., também à Fonte do Crasto, em Navais, anda associada a tradição da Moura Encantada. Situada a nascente da Estrada Nacional nº 13, esta construção foi durante séculos o único ponto de abastecimento de água do lugar. Demitida desta ancestral função viu-se duplamente penalizada; sofreu o abandono “físico” e até o esquecimento no imaginário popular da memória concreta da lenda a ela associada. Hoje para a maioria das suas gentes a recordação da Moura Encantada* é muito ténue, a exemplo destes versos cantados pelo Grupo Folclórico de Navais:
“No tempo dos meus avós
Já a minha avó me contava
Que havia lá um tesouro
E uma moura encantada”
Implacáveis, os Tempos Modernos “mataram” a Moura ferindo-a na sua própria essência, foi apagada do Maravilhoso Popular, do qual era uma das mais poéticas criações. Agora só lhe resta trocar de refúgio, recolhendo-se às páginas dos livros.
A nível nacional era grande a variedade de relatos: um dos mais característicos era o do homem abordado por sedutora mulher de longos cabelos dourados que lhe propunha a passagem, no dia seguinte, para contactos eróticos em troca de objectos preciosos por ela guardados. Se o interpelado acedesse ao convite encontraria uma cobra a quem deveria beijar. Como a quebra do compromisso ou o medo no momento parecia afectar todos os “candidatos a desencantadores de Mouras” as fabulosas riquezas continuavam uma miragem inalcançável. A Moura Encantada assumia, portanto, duas formas: a de cobra e a de gentil donzela que prometia tesouros e riquezas inesgotáveis àquele que lhe quebrasse o fadário.
A esta lenda andam associadas, sobretudo, duas vertentes: a de divindade ou génio feminino das águas (fontes, rios, ribeiros, poços, etc.) e a de guardadora de tesouros encantados. Uma particularidade interessante era a sua paixão pelo leite, o que se explica pela confusão entre as mouras e as cobras, sob cuja forma apareciam. Está “arreigado no nosso povo a crença de que quando há uma criança de mama que está magra, é porque de noite uma cobra vem mamar no peito da mãe, metendo o rabo na boca da criança para a enganar. Também se crê que para apanhar uma cobra basta colocar no sítio onde ela costuma aparecer, um alguidar de leite” (1). Outro elemento curioso era o que supostamente ocorria na noite e madrugada de S. João, momento em que a moura se libertava e, em figura humana, vinha pentear os seus cabelos de ouro.
Para os etnógrafos a esta lenda caberia a função de sacralizar a terra e o trabalho agrícola. A Moura personifica a Mãe Terra e a cobra apresentada como um animal solidário da mulher. Da combinação destas duas simbologias resultaria a valorização do trabalho agrícola (as riquezas douradas da Moura eram ancinhos, cavalos, bois, etc.) e revelar-se-ia o poder da mulher na agricultura.
A identificação de “Moura” como feminino de mouro é errónea. Convém lembrar que os muçulmanos nunca chegaram a dominar o norte do país e era precisamente aquique mais se encontrava implantado este mito. A origem, embora difícil de determinar com segurança, deve-se procurara noutra área: Moira (termo grego) era o nome dado às deusas tecedeiras. Também se pode aproximar a palavra moira de Mairas, dos antigos Germanos, ou ainda de Morgana ou Muriguen, deusa celta.

Mª Jesus
(1) Pedroso, Consiglieri – Contribuições para uma mitologia popular portuguesa e outros escritos etnográficos, Lisboa, Dom Quixote, 1988, p. 223


publicado por Cidade Para Todos às 23:26
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